Nesta semana, duas notícias de tirar o fôlego, mesmo dos mais antenados, foram alvo de intenso debate na mídia e nas conversas.
Uma equipe multinacional do Instituto Salk, americano e da UCAM na Espanha liderada pelo cientista espanhol Juan Carlos Izpisúa conseguiu criar pela primeira vez uma quimera – um ser híbrido – entre humano e macaco num laboratório da China, dando um importante passo para transformar animais de outras espécies em fábricas de órgãos para transplantes. Em paralelo, o persistente biólogo de células-tronco Hiromitsu Nakauchi finalmente recebeu a aprovação de um governo disposto a bancar um dos estudos científicos mais controversos que existe: experimentos com embriões de humanos e animais.
Em março deste ano, aliás, o governo japonês já havia derrubado a “linha vermelha”, lei que proibia esse tipo de experimentos para além do 14º dia de gestação e que também vetava a transferência de embriões para o útero de uma fêmea animal, de acordo com a revista científica Nature. Essa proibição visava, em teoria, que as gestações hibridas fosse levadas a cabo e que o sistema nervoso humano central começasse a se desenvolver (o que acontece a partir da segunda semana pós-fecundação).
Em ambos casos, as declarações procuram deixar claro para nós, leigos mortais, os fins a que se propõem, curativos e restauradores, bem como a ainda teórica distância até resultados concretos – falamos ainda de pesquisas que estão nos primeiros estágios de observação e coleta de dados. Mas as quimeras estão aí, chegaram pra ficar e não irão embora mais (lembrando que a χίμαιρα original grega era um híbrido de cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente).
As implicações políticas.
Um ponto interessantíssimo: tanto a equipe americana quanto a espanhola deixam claríssimo que a opção pela China se dá por conta da desregulamentação rígida a esse respeito.
Enquanto cientistas americanos e europeus são amordaçados em pesquisas nesse sentido, acossados parte por ativismo ignorante civil, questões éticas, fúria regulatória e lobbies farmacêuticos, o capitalismo de Estado chinês e sua ditadura passam olimpicamente por essas questões, oferecendo um ambiente com recursos e poucos questionamentos. Obviamente a contra-partida é a imediata transferência de todo o conhecimento para a academia e indústria chinesas, que sabiamente vão se transformando nos soberanos inquestionáveis nesse campo da evolução.
Ao Japão, se não quiser ser engolido pelo milenar rival político, só resta enfiar o pé no acelerador mais rapidamente ainda, o que explica a opção por bancar politicamente a briga ética. Sem opções, americanos, canadenses e europeus rezam por alguma milagrosa mudança que os reconduza à liderança perdida ou ficarão de camarote, não mais no centro do mundo -como tudo que envolve vida mais longa e saudável, a marcha humana será simplesmente imparável.
E os latinos? Hummm… não me faça rir. Nosso papel (tirando por enquanto algumas honrosas exceções baseadas no esforço individual) será ou de críticos invejosos disfarçados de éticos ou de consumidores alucinados – se ricos o suficiente.
E a ética: sempre mais perguntas que respostas
Não queria ser um animal de laboratório. Jamais. O sofrimento que inúmeras gerações de camundongos, porcos e chimpanzés passarão até que este conhecimento seja dominada será excruciante, dói o coração de pensar. Não sei como pensar ou agir em relação a isso, exceto numa covarde e silenciosa concordância.
Explicitamente, um das questões espinhosas já foi posta na mesa pela equipe japonesa: Com o tempo precisaremos levar as gestações a termo.
Ou seja, as quimeras nascera, chorarão, se alimentarão, brincarão, amarão, viverão.
Como lidar com isso? Humanos-animais? Animais-humanos?
Em algum momento teremos que pular as linhas vermelhas que existiram até agora, como a interrupção da gravidez. “Até agora, as células humanas não sobreviveram em embriões de animais. No entanto, o objetivo de nossa pesquisa é fazer com que células humanas sobrevivam e contribuam para a formação de quimeras. Portanto, com o tempo precisaremos levar as gestações a termo”, diz Nakauchi. O médico Angel Raya, diretor do Centro de Medicina Regenerativa de Barcelona, recorda as barreiras éticas que experiências com quimeras enfrentam. “O que acontece se as células-tronco escapam e formam neurônios humanos no cérebro do animal? Terá consciência? E o que ocorre se estas células pluripotentes se diferenciarem em espermatozoides?”, exemplifica Raya.
Obviamente e por mais que os cientistas neguem tais práticas hoje, está explícita a necessidade de avançar sempre mais, sob pena de não obter o controle total possível do resultado disso na aplicação humana. Os pesquisadores ainda não falam, mas e quando for o caso de implantar os embriões das quimeras nas mulheres? Ou embriões semi-humanos em macacos? Como compreender ou classificar essas novas espécies de Homo Mutantis?
A neurocientista americana chefe do MIT, Dra Susan Hockfield, já havia afirmado que o limiar da bioengenharia é simplesmente a maior revolução da história da humanidade – mais até que o algoritmo. É impossível prever as consequências – dá só pra raspar a superfície. Podemos preparar o humano pra ir pro espaço – nossa biologia é o grande impedimento de aguentarmos o deslocamento. Outra meta é a fusão conosco de telômeros de seres que conseguem desacelerar o tempo biológico ou reconstroem sinapses a uma velocidade impressionante. Virtualmente nas próximas décadas, veremos maravilhas e estranhezas que ainda não conseguimos imaginar.
Mas será caro, será para poucos, será um fator de divisão mais profunda de classes. É mais ou menos como a diferença de cérebro entre alguém que é bem alimentado na primeira infância e alguém quem não é – se tornam seres tão diferentes que não conseguem se reconhecer como iguais. Vai valer a pena ter muito dinheiro e/ou poder, porque será muito provável o acesso em primeira mão a fontes de substituição de órgão. Ser um velho burocrata do Partido Comunista Chinês (alguns milhões de seres humanos), uma alta executiva postergando a gravidez, um atleta excepcional de alta performance sendo remendado (ou seja estar no topo da cadeia) garantirá no mínimo saúde e longevidade para tentar seguir lá. A mobilidade social pode ser consideravelmente abalada. A carga de ressentimento contra as elites e os velhos só aumentará – pelo menos até que se popularize uma parte do acesso.
Platão já afirmava: o bom é belo. Estamos falando de esforços para obter uma saúde impecável , cinco sentidos mais afiados, beleza física, cognição aumentada e vida longuíssima. Absolutamente todos os seres humanos querem de 1 a 5 dessas coisas, só varia a quantidade de itens.
E parando pra pensar bem:
Temos o discurso da cura da doença; mas no final, sendo a morte considerada a maior de todas as doenças, sempre será para combatê-la que direcionaremos todos nossos esforços.
Dedicado aos @voicers, comunidade única.
Agradeço a Sociedade Cientifica e ao El Pais pelas informações e analises. Seguem os links.
Anna Flávia Ribeiro
Filósofa, IT, Vendas, Educação – criando pessoas polímatas
Publicado originalmente no LinkedIn Pulse em 1º de agosto de 2019
