O assunto deixou de ser “tema de economista” e virou questão de sobrevivência para quem faz parte de setores econômicos em territórios que queiram acessar mais recursos, gerar resultados e sair do “cada um por si”, com mais colaboração.

Se até pouco tempo a governança de cadeias produtivas parecia um assunto distante, hoje ela está no centro das decisões de quem quer manter seu território relevante, competitivo e vivo nesta década. Em 2025, acompanhando de perto projetos de planejamento estratégico e governança de Cadeias Produtivas Locais (CPL) no Alto Tietê, e interagindo com outras regiões paulistas, ficou nítido que há uma equação que se repete: quando territórios se organizam em rede, com abertura e ações reais para a colaboração, com papéis claros, regras combinadas e coordenação ativa entre os atores, o acesso a recursos aumenta, os resultados ganham escala e a lógica do “cada um por si” começa, enfim, a perder espaço.
Se você é gestor de entidade, ator de CPLs, interessado em desenvolvimento setorial e territorial ou tem interesse em fortalecer a sua cadeia produtiva, esse artigo é para você!
O que muda quando sua CPL tem governança
Quando uma cadeia produtiva se reconhece como um sistema integrado e não como um conjunto solto e desordenado de empresas e entidades, aparecem rapidamente alguns ganhos concretos.
- Acesso a editais e programas como SP Produz deixa de ser uma corrida contra o tempo e passa a ser uma estratégia coletiva, com uma entidade gestora legitimada falando em nome do conjunto;
- A agenda de ações (formação, mercado, inovação, infraestrutura, comunicação) passa a ser organizada e monitorada, em vez de depender de iniciativas pontuais e individualistas;
- Parcerias com governos, universidades, instituições de fomento e grandes empresas ganham tração porque o território se apresenta articulado, com fórum de governança, plano estruturado, objetivos e prioridades claras.
Nos projetos realizados em 2025, esse arranjo ficou muito visível: quanto mais clara a estrutura de governança da CPL (quem decide, como decide, com quais instrumentos), mais fácil foi transformar boas ideias em projetos financiados, contratos firmados e entregas tangíveis para os elos da cadeia. Em vez de disputas fragmentadas por pequenos recursos, o foco passa a ser na colaboração, ganhos de escala e fortalecimento setorial.
Do edital ao território: quatro passos para transformar ideia em projeto de fomento
Programas estaduais como o SP Produz colocaram em evidência um ponto pouco falado: não basta “ter um bom projeto”; é preciso também que esse projeto nasça de uma governança minimamente organizada. Antes de falar de como tirar a ideia do papel, vale lembrar que muitos editais pedem, de forma explícita ou indireta:
- Definir entidade gestora responsável pela CPL: entidade sem fins lucrativos, com mais de 2 anos de fundação, que represente empresas e demais atores da cadeia;
- Estruturar e operacionalizar fórum de governança da CPL: com diversidade de elos da cadeia produtiva, que conte com a participação de empresas fornecedoras, produtores, indústrias, comércio, poder público, ICTs, associações e outros atores relevantes;
- Desenvolver planejamento estratégico ou agenda de desenvolvimento da CPL com diagnóstico, definição de objetivos, ações de curto, médio e longo prazo, metas e indicadores de acompanhamento e monitoramento, além de dados de fontes confiáveis para apresentar a dimensão e impacto econômico da cadeia produtiva no território;
- Estabelecer resultados esperados: desenhar o plano de trabalho com estratégia de implementação, plano de comunicação estruturado e mecanismos de medição e acompanhamento dos resultados.
Em 2025, nós da B2INN apoiamos com sucesso três entidades gestoras na etapa de habilitação jurídica. Atuamos também na estruturação da governança e do planejamento estratégico de cinco CPLs na região do Alto Tietê. Todas essas CPLs conquistaram o reconhecimento como CPL Consolidada, pelo grau de maturidade apresentado na chamada pública. Também assessoramos a elaboração e submissão de um projeto para o edital de fomento do programa SP Produz, tendo sido aprovado com nota 8,45/10 já na publicação do resultado prévio, isto é, sem necessidade de recurso para revisão do resultado.
Na prática, o que aprendemos com esses processos foi que o caminho para estruturar um projeto de fomento passa por 5 etapas críticas:
- Alinhamento interno da cadeia produtiva: mapear e identificar os elos e quais os papéis de cada um, quem são os atores, quais dores são realmente compartilhadas e quais agendas podem ser tratadas de forma conjunta, para além das disputas comerciais do dia a dia;
- Desenho do modelo de governança: definir como o fórum de gestão e governança decide, como a entidade gestora se relaciona com os elos e atores, como novas empresas são incorporadas como membros e como lidar com conflitos;
- Tradução da visão em projeto: transformar o que o território quer (mais mercado, mais qualificação, mais infraestrutura, mais inovação) em um objeto consistente e robusto, com escopo, orçamento, cronograma, plano de trabalho, metas e indicadores alinhados aos critérios do edital;
- Costura institucional: articular prefeituras, órgãos estaduais, consórcios regionais, SEBRAE, centros de formação (ETECs, FATECs, IFs, universidades), centros de pesquisa, instituições financeiras e parceiros privados para reforçar o projeto e aumentar sua capacidade de execução;
- Equipe com dedicação exclusiva: por último, mas não menos importante, para a elaboração e submissão do projeto dentro do (curtíssimo) prazo estabelecido, com atenção aos detalhes, com a qualidade e os cuidados exigidos pelo rigoroso edital, uma equipe experiente, alinhada, comprometida e com dedicação exclusiva é fundamental.
Esse caminho exige tempo, conversas difíceis, revisão de expectativas e, muitas vezes, mediação neutra para equilibrar interesses. Mas quando o território consegue atravessar esse processo, a CPL deixa de ser “um conceito bonito no papel” e passa a operar como uma infraestrutura colaborativa de desenvolvimento econômico e social.
Como transformar o rigor dos editais em vantagem competitiva
Se você quer acessar recursos e investimentos para a sua cadeia produtiva, vai precisar tratar gestão e governança da CPL no mínimo com o mesmo rigor que o edital exige de você. Quem já tentou submeter projetos a editais como os de fomento público sabe: o nível de rigor jurídico, contábil e técnico não é detalhe, é critério de sobrevivência. No caso de programas voltados a cadeias produtivas, esse rigor costuma aparecer em três camadas:
- Elegibilidade: tipo de entidade (organizações da sociedade civil – OSCs – como associações, cooperativas, sindicatos), regularidade fiscal, tempo de atividade, documentação societária, critérios específicos para entidades gestoras de CPL;
- Qualidade técnica: coerência entre diagnóstico, objetivos, planejamento estratégico e o projeto, além de aderência a políticas públicas e programas estruturantes do Estado;
- Gestão e prestação de contas: governança interna da entidade gestora, capacidade de execução da equipe técnica, gestão de controles financeiros e contábeis, transparência e mecanismos para acompanhamento, monitoramento e apresentação dos resultados.
Trabalhando com entidades gestoras e organizações setoriais ao longo do ano, ficou claro que muitos coletivos e associações têm grande força mobilizadora, mas esbarram justamente nessas exigências. A boa notícia é que essas “travas” podem ser transformadas em alavancas se forem encaradas como oportunidade de profissionalizar a gestão e consolidar a governança da cadeia produtiva.
Alguns exemplos práticos que fizeram diferença nos projetos acompanhados:
- Revisar estatutos e regimentos internos para refletir claramente o papel da entidade como gestora de CPL, incluindo dispositivos de transparência, participação e controle social;
- Estruturar equipes e processos internos para contratação de prestadores de serviços, compras de materiais, registros financeiros e guarda de documentos, já alinhados às exigências típicas de editais públicos;
- Criar comissões ou grupos de trabalho dentro da governança da CPL para acompanhar execução, riscos e prestação de contas, envolvendo representantes de diferentes elos (fornecedores de insumos, produtores, comercialização e distribuição, academia, associações, poder público, sociedade civil).
Em síntese, o rigor dos editais deixa de ser “vilão” quando a cadeia se organiza para tratar gestão, governança e conformidade como competências estratégicas, em vez de burocracia ocasional.
Colaboração entre cadeias: a próxima fronteira
Um aprendizado marcante de 2025 foi perceber como cadeias produtivas diferentes podem se fortalecer mutuamente quando conseguem dialogar a partir de um olhar territorial e de futuros. A aproximação entre cadeias ligadas à economia criativa, turismo, agronegócio, cultura e audiovisual, economia verde, alimentação, ciência e tecnologia, por exemplo, abre espaço para:
- Projetos integrados para desenvolvimento territorial, combinando formação, infraestrutura, marketing territorial e inovação;
- Compartilhamento de equipamentos, espaços, plataformas digitais e canais de comercialização, reduzindo custos e ampliando alcance;
- Narrativas integradas para criar e comunicar identidades locais que conectam a produtos, serviços, eventos, vivências e experiências fortalecem a imagem do território, também conhecida como place branding.
Do ponto de vista das políticas públicas, esse tipo de articulação dialoga diretamente com agendas de desenvolvimento sustentável, economia criativa e de inovação, ampliando a capacidade de captação de investimentos e recursos de fomento em diferentes linhas. Ao mesmo tempo, ajuda as cadeias a olharem para frente, explorando cenários e tendências para a prospecção de futuros possíveis e preferíveis, para não ficarem presas apenas às urgências do presente.
Aqui, ferramentas de foresight estratégico, design de serviço e design especulativo são especialmente úteis para criar roteiros de futuros compartilhados, onde diferentes cadeias produtivas projetam e enxergam sinergias em vez de concorrência. Quando o território começa a imaginar seus futuros desejáveis, a governança da CPL deixa de ser apenas um fórum de “apagamento de incêndio” e se torna um espaço de antecipação, experimentação e inovação.
Por onde começar a organização de sua CPL?
Se a sua entidade gestora, associação setorial, coletivo ou arranjo territorial está olhando para programas como o SP Produz e outros editais de fomento e sente que “falta organização” para dar o próximo passo, isso é um ótimo sinal: significa que já existe a consciência de que a fase de improviso está ficando para trás.
Alguns caminhos práticos que podem ser dados nos próximos meses:
- Organizar um encontro ampliado da cadeia produtiva (ou de cadeias que se conectam no território) para mapear dores comuns, oportunidades e prioridades;
- Revisitar o papel e a estrutura da entidade gestora, ajustando estatuto, regimento, governança e processos internos para se alinhar às exigências típicas de programas públicos de fomento;
- Construir um esboço de plano estratégico de desenvolvimento da CPL (ou de um conjunto de cadeias), com horizonte de 3 a 5 anos, já pensando em como dialogar com editais existentes e futuros.
Se fizer sentido para a realidade da sua organização, agende 60 minutos com a gente da B2INN, para um diagnóstico preliminar da governança e para compreender o estágio da sua cadeia produtiva, para então definirmos os próximos passos.
É exatamente nesses pontos mais sensíveis, que nós da B2INN atuamos: no desenho e fortalecimento da governança da cadeia produtiva, estruturação do planejamento estratégico e de projetos para editais complexos, para construção de visões de futuros para o território, que conectem inovação, desenvolvimento com inclusão produtiva e impacto social. O convite é simples: antes de submeter o próximo projeto, marque uma conversa conosco. Vamos explorar como transformar a sua cadeia produtiva local em uma plataforma colaborativa de desenvolvimento, sustentável, inovadora e preparada para os futuros que já começaram a bater na porta.
