Dos dias 6 a 9 de Setembro, em Santa Rita do Sapucaí – MG, aconteceu a quarta edição do Hack Town, um dos maiores festivais de inovação do país. E eu fiz parte da programação daquele evento incrível, com ares de SXSW, no considerado “Vale do Silício brasileiro”. E eu quero compartilhar essa história com vocês!
Em um momento da minha carreira eu me vi com um desafio enorme de ajudar a mudar a cultura organizacional de um negócio para implementar mindset de inovação e incentivar a adoção da visão do Design Thinking. A partir de lá, entrei em contato com assuntos incríveis como IoT, inteligência artificial, drones, carros autônomos, blockchain, economia baseada em recursos, mundo VUCA, exponencialidade, disrupção, projeto vênus… um universo novo se abriu. De repente eu estava dando entrevista para um dos maiores jornais do estado para falar de inovação e seus impactos junto a pessoas maravilhosas e incríveis.
Até que em um dia de uma semana fria, eu estava saindo de casa e fui surpreendida por um homem de regata, bermuda e chinelo que tremia muito e que se colocou no meu caminho pedindo por qualquer coisa que eu tivesse e que pudesse ajudá-lo a se esquentar. “Sou pequena. Acho que nada meu vai servir em você”. “Não tem problema moça. Eu tenho muitos irmãos menores e todos eles estão passando frio. Tudo que a senhora tiver vai me ajudar!”. E isso cortou meu coração.
Eu sempre soube que um monte de pessoas em situação de rua passavam frio mesmo antes de me envolver com inovação. Mas aquilo naquela hora bateu de um jeito diferente pra mim. Eu peguei o que eu tinha nos guarda-roupas e armários e entreguei ao homem que tremia enquanto eu estava vestindo um sobretudo grosso e cachecol. Eu e ele éramos o oposto, representando a injustiça de uma sociedade que funcionava gerando diferenças.
Isso eu também já sabia, e sempre soube, mesmo antes de me envolver com inovação.
Mas aquilo naquela hora bateu de um jeito diferente pra mim.
E eu fui para o meu trabalho naquele dia, extremamente incomodada. Eu segui o dia falando sobre healthtech, insurtech, lawtech, edutech… quanta coisa maravilhosa! Todas encontrando um jeito melhor de fazer as coisas que eram feitas até então. Impressoras 3D imprimiam órgãos, o machine learning permitia que assistentes virtuais falassem e respondessem como humanos, foguetes eram projetados a baixíssimo custo, já era possível imprimir uma casa em impressora 3D… mas aquele homem passava frio e vivia na rua. Eu segui o dia tomando café na minha caneca preferida que dizia “Do What You Love”. Fluxonomia 4D, organizações exponenciais… mas aquele homem tremia e todos já sabiam que o mundo era assim mesmo. Eu segui o dia pesquisando sobre govtech e aplicações incríveis de blockchain para governos mais transparentes. Mas aquele homem era só mais um dos vários que viviam a escassez. E o mundo seguia tranquilo e conformado com essa cruel realidade, como tem seguido por anos…
Sempre quando me perguntavam: você prefere passar calor ou sentir frio? Eu dizia: passar calor – porque era só retirar a jaqueta. E então eu entendi porque aquilo, naquela hora bateu de um jeito diferente pra mim, mesmo eu sabendo a minha vida toda que existiam pessoas passando frio nas ruas. Aquele homem era a realidade da escassez que batia na minha porta se mostrando. Retirar a jaqueta é a liberdade da abundância. Naquele momento eu já tinha sido apresentada para o conceito de abundância e de exponencialidade. E aí, a minha consciência das coisas já não permitia que aquilo fosse admissível pra mim. A minha consciência do quanto a humanidade já tinha alcançado um avanço tecnológico e recursos incríveis não podia mais admitir que pessoas ainda sofressem de escassez. Sofriam de falta. A abundância não chegava até elas. Que mundo exponencial é esse?
Que mundo exponencial é esse?
Aquilo me incomodou tanto que eu não sabia o que fazer e naquele dia conversei com vários amigos (dentre eles, um que foi apoiador desde o início me incentivando a seguir: Marc Tawil) apenas para contar o que tinha acontecido porque eu não sabia o que fazer com aquele incômodo. Fui contando do quanto estava inconformada e repeti tantas vezes que percebi que apenas o inconformismo, preso no discurso, não aliviaria em nada o incômodo que eu estava sentindo.
Parei. Pensei. O que tenho AGORA para poder FAZER algo sobre esse meu incômodo?
Eu era do mundo da inovação. Eu conhecia e me relacionava bastante com muita gente incrível. E muita gente incrível que tinha se inconformado com algo e iniciado projetos maravilhosos. Tinham usado o incômodo de “dá pra ser diferente, dá pra fazer diferente, dá pra ser melhor” e criado algo. Eu queria saber como fazer isso. Eu queria me inspirar. E se tivesse mais gente como eu?… inconformada e sem saber se dava pra transformar isso em algo bom pro mundo?
E aí surgia o DAY 1 dos InconforMAKERS
Pensei: por que não fazer um grande evento trazendo casos de gente inconformada que já estava fazendo alguma coisa para inspirar os outros? Melhor: já que o meu inconformismo só aconteceu porque minha consciência sobre as potencialidades do mundo da inovação tornou inadmissível o que antes eu achava um incômodo tolerável, por que não falar sobre isso? Sobre esse abismo entre o discurso inovador do mindset da abundância exponencial e a realidade de escassez do nosso País trazendo cases de sucesso de gente que estava fazendo algo sobre isso em várias frentes com startups de impacto social?
Inspirar pessoas inconformadas a serem mais MAKERS foi meu objetivo principal. Se cada um que se sentisse inconformado fizesse algo que impactasse as pessoas ao seu redor e inspirasse mais gente, isso seria exponencial!
Mas como uma homenagem ao homem que passava frio e que despertou todo esse meu incômodo, decidi também que o evento seria gratuito e que a inscrição seria uma doação de agasalho que seria entregue diretamente a pessoas em situação de rua.
Sobre o nome do evento, surgiu o insight: sou uma inconformada que está sentindo um incômodo e que arranjou no FAZER um jeito de aliviar esse inconformismo através da criação de algo que pudesse fazer um pouco a diferença. Inconformada que FAZ. InconforMAda… InconforMAKER!!!! Mal sabia eu que aquele nome de evento não seria nunca somente o nome de um evento…
Contatei todas as pessoas maravilhosas que eu conhecia com iniciativas de impacto social e fiz o convite para que elas palestrassem por essa causa. Também fiz contato com o Google Campus para conseguir o auditório fantástico. Fiz tudo sozinha, mas sabia que isso me limitaria. Data marcada para o dia 16 de julho desse ano – um dia após o meu aniversário. Quem, assim como eu, acredita que nada é coincidência nesse mundo, vai entender quando digo que era um sinal do universo de que meu ano novo pessoal começaria com um turning point na minha vida!
O evento estava todo pronto, mas esse ainda era um sonho de uma pessoa só. Eu mesma. O sonho de uma pessoa só é poderoso, mas só transforma o mundo o sonho que é sonhado por mais gente. Eu era maluca de ter criado sozinha um evento desse porte sem ter uma equipe de apoio! Decidi compartilhar: alô, tem mais gente maluca como eu que acredita nisso aqui que eu acredito?
E aí surgiram vários malucos como eu. E que incrível quando a gente descobre que não estamos sonhando sozinhos. Quando encontramos a nossa tribo! E então o evento aconteceu e foi inspirador! Falando da era da abundância, das potencialidades incríveis da tecnologia, das coisas maravilhosas que as pessoas estavam fazendo através das suas startups, do impacto positivo que podíamos gerar no mundo…
Marcelo Spaziani, Vice Presidente da IBM LATAM falando no primeiro evento InconforMAKERS no Google Campus em SP.
Pessoas incríveis subiram ao palco para contar suas histórias de inspiração! Abri o evento com um Call for Action. O amigo Marc Tawil falou brilhantemente sobre o Capitalismo Consciente e sobre como era importante que o lucro existisse, mas que não fosse admitido a todo e QUALQUER custo. Em seguida um case matador da startup Pluvi.On reconhecida pela ONU e representada no palco pela Mari Marcílio. A Pluvi.On criou uma solução que alerta sobre mudanças climáticas e perigos de enchentes em comunidades periféricas. Contando do programa “Call for Code” da IBM, ele que topa sempre meus projetos doidos, o querido Marcelo Spaziani. O programa da IBM oferece suporte para empreendedores que estejam desenvolvendo soluções tecnológicas com o fim de causar impacto social.
Todos os palestrantes do primeiro evento InconforMAKERS.
Depois foi apresentado no palco o case de parceria entre a startup de educação CONQUER e o Projeto Lavanderia de dignidade e ressocialização de pessoas em situação de rua com Josef Rubin e Lucas Caldeira. Eles se uniram para criar um curso de educação financeira para essas pessoas em situação de rua. Colocar esse projeto no palco do Google Campus foi especial pra mim, porque o Projeto Lavanderia estava junto com o Projeto Entrega por SP fazendo algo para pessoas como aquele homem com frio que despertou toda essa minha jornada. O trabalho deles é tão incrível que o Projeto Lavanderia ganhou recentemente o prêmio WeWork Creators Awards, logo depois desse nosso evento dos InconforMAKERS. Muito merecido!!! Pra fechar o sensacional Antonio Pita contando da startup Black Diaspora que empodera o turismo da comunidade negra.
Tivemos por volta de 100 participantes: como impacto mensurável e direto do meu inconformismo, eu sabia que pelo menos 100 pessoas das ruas receberiam um agasalho que poderia fazer a diferença para sobreviver a uma noite congelante.
Mas o mais incrível, além das doações, foi o meu propósito principal de provocar o inconformismo na vida das pessoas interessadas em inovação e inspirá-las a AGIR. A fazer algo sobre isso!!!
E a inspiração foi tão poderosa que as pessoas ficaram incomodadas assim como eu fiquei. Mas diferentemente de mim, elas ficaram incomodadas ao mesmo tempo em que estavam já inspiradas com os casos que elas conheceram no palco. O inconformismo já foi dado junto com a inspiração do fazer. Começaram a me dizer: “estou inconformado com isso e sei que dá para FAZER algo. Vamos fazer?”
E então surgiu o InconforMAKERS.
Começamos a ajudar startups do bem a pensar em como atingir e impactar positivamente ainda mais pessoas através do seu propósito, discutindo seus principais pain points e cocriando maneiras de escalar seu impacto. E começamos animados e totalmente engajados por esse propósito!
Resolvemos ser inconformados MAKERS. Decidimos FAZER o que acreditamos pra caramba que faça a DIFERENÇA no mundo. Nosso propósito nos faz abraçar outros propósitos que tenham a ver com o que acreditamos. Porque assim conseguimos AUMENTAR o impacto de projetos do bem. E assim temos um mundo melhor: onde mais pessoas vivam e criem o mundo em que elas desejem viver. Porque no fundo, o propósito dos InconforMAKERS é cocriar junto com inconformados uma jornada em que eles possam ser mais MAKERS. Porque mais inconforMAKERS no mundo, significa mais gente transformando a coceirinha do incômodo na CRIAÇÃO de algo maravilhoso. E juntos, sim, podemos fazer desse mundo um lugar um pouquinho melhor!!!
Até que depois de um mês desde o primeiro evento inspiracional no Google Campus, eu recebia o convite para fazer parte da programação de um dos maiores festivais de inovação do país: o HackTown. Ainda melhor: a ACTION, que são as nossas facilitações, seria um dos prêmios para uma das startups que apresentariam seus pitches no evento. Falar sobre os InconforMAKERS para tanta gente do mundo da inovação foi um marco.
Enquanto eu estava com o microfone nas mãos e contava nossa curta trajetória, cheia de histórias incríveis, relembrei todos os acontecimentos inacreditáveis que tem acontecido desde então, apenas porque eu me recusei a aquietar e abafar um incômodo, como geralmente a gente sempre faz. Apenas porque eu senti o inconformismo e permiti que ele me doesse a ponto de me fazer agir, a FAZER algo sobre. Eu nunca poderia imaginar que meu inconformismo com aquele homem que tremia de escassez me levaria a idealizar algo tão poderoso quanto os InconforMAKERS que querem espalhar o conceito de abundância. Mas quando eu estava preparando meu discurso, relembrando esse um mês e meio tão recente na memória, entendi que eu permiti que se formasse uma combinação revolucionária dentro de mim: o INCONFORMISMO com a ATITUDE.
Inconformismo é a indignação perante a situações e cenários que poderiam ser melhores. Se o inconformismo não for posto em movimento, ele vira pessimismo. O inconformismo nunca pode ser só discurso e só palavra, com o perigo de virar amargura. Mas se o inconformismo é a faísca que gera a explosão de uma atitude consciente, direcionada a fazer algo para tornar os cenários um pouquinho melhores do que são… aaaaaah aí o inconformismo vira uma potencialidade exponencial de formar um monte de gente com atitude MAKER que, espalhadas e motivadas a AGIREM e não se conformarem com o que pode ser MELHOR, podem sim, aos poucos, mudar esse mundão!
Eu escolhi ser uma InconforMAKER, e você?
😉🤩 #propósito #purpose #inconforMAKERS #atitudeMAKER
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Dani Taminato é uma InconforMAKER. Idealizadora do projeto, se formou em Relações Públicas pela USP com MBA em Gestão de Empresas pela FGV e Marketing pela Ohio University. Atua com INOVAÇÃO, mudança cultural e desenvolvimento de negócios. Daniela é palestrante e professora convidada de inovação e Design Thinking. Apaixonada em compartilhar ideias, conectar gente interessante, é super entusiasta do ecossistema brasileiro de startups. daniyk@gmail.com
Também é verdade: uma inquieta impulsionadora de novos projetos e adepta fervorosa da meditação. Ex-professora de dança de salão. Peregrina do Caminho de Santiago. Nas horas vagas gosta de tocar seu violão no cantinho do quarto enquanto canta para Pancho, seu cachorro que sempre curte um som 🙂


Excelente @daniyk
Um desafio muito grande é desenvolvermos a real capacidade de abrir nossa mente e nos permitirmos exercer a empatia de maneira plena. E mais que isso, partirmos para a ação.
#GoInconforMAKERS
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