Semana passada fui convidada para falar em um evento chamado “Future of All”, dentro da Feira do Conhecimento do Ceará, que por sua vez reuniu cerca de 25.000 pessoas para discutir sobre ciência, tecnologia e inovação, em sua maioria jovens!
O “Future of All” teve como objetivo debater possíveis futuros em diversos níveis, como indivíduo, sociedade e planeta. O que me lembrou bastante das discussões do Yuval N. Harari no seu livro “21 lições para o século 21”. (Se ainda não leu, leia!) E, obviamente, não dá pra falar sobre amanhã sem pensar na evolução do papel social de metade da população do mundo: as mulheres, em sua singularidade e pluralidade.
Fiquei muito feliz em abrir essa discussão sobre Protagonismo Feminino com a Psicóloga Janete Bezerra, Presidente da Associação Brasileira de RH/CE. O que me fascina sobre o tópico é que é necessário desafiar padrões culturais para que se possa abrir uma conversa sobre reinvenção de papéis. O que nem sempre é confortável, mas é urgente e necessário.
O fato é que, independente da área de atuação, não se escolhe interessar-se ou não pela temática, é como se o assunto saltasse aos olhos nas suas formas mais cotidianas, das relações interpessoais à inserção no mercado de trabalho. Pelo menos foi assim pra mim.
Em 2015, fiz um curso sobre Liderança Feminina pela Impulso Beta em São Paulo, que trabalha com inteligência de gênero para negócios. Nesse momento, comecei a entender como as situações que eu experienciava no dia-a-dia eram traduzidas em dados e estatísticas. Isso foi importante pra mim porque existem duas formas de mudar o mundo, sendo uma delas pela nossa própria história e a outra pelos dados. E porquê não reunir as duas?
Quando a nossa história é contada a partir da realidade de milhares de mulheres que vivem situações semelhantes, isso ajuda a ampliar a discussão para além da questão de gênero, passando a sensibilizar o olhar para práticas de exclusão arraigadas na nossa sociedade. Trazer diversidade para espaços de tomada de decisão não é uma questão somente feminina, mas definitivamente passa por essa pauta.
São inegáveis os avanços na conquista de direitos sociais pelas mulheres, especialmente com a luta do movimento feminista nas últimas décadas. No que tange a política e a economia globalmente, hoje temos um número recorde de mulheres no congresso americano e a marca histórica de 33 CEOs mulheres nas 500 maiores corporações do mundo. Porém, pra citar um outro livro de cabeceira (Factfulness, Hans Rosling), as coisas podem estar melhores e ainda assim estarem ruins.
Então, resolvi pesquisar um pouco sobre como anda a situação da mulher no Brasil e no mundo e esses são os dez dados que mais me impressionaram:
- “Apenas 13,6% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres nas 500 maiores empresas brasileiras.” (Fonte: Ibope e ONU Mulheres/2017)
- “Mais de 50% das empresas no Brasil não possuem mulheres em cargos de liderança.” (Fonte: Grant Thornton/2015)
- “No Brasil, as mulheres já são responsáveis por 42% da renda familiar.” (Fonte: IBGE: 2014)
- “Na América Latina, 65% das mulheres não se sentem seguras de ficarem sozinhas no ambiente de trabalho” (Fonte: OIT e Gallup/2017)
- “Para 68% das mulheres, a principal barreira para assumir um cargo de liderança é preconceito de seus chefes.” (Fonte: El País e Instituto Locomotiva/2016)
- “39% das empresas do G7 não tem mulheres nos seus conselhos administrativos.” (Fonte: Grant Thomton/2015)
- “Igualdade de gênero pode acrescentar US$ 12 trilhões ao PIB global até 2025.” (McKinsey/2017)
- “Mulheres gastam 4x mais tempo nas atividades domésticas do que os homens” (Fonte: OCDE/2014)
- “Mulheres recebem o equivalente a 80% do salário dos homens em 2014.” (Fonte: IBGE/2016)
- “Negros e mulheres ocupam menos de 20% dos cargos de liderança nas empresas.” (Fonte: BID e Instituto Ethos/2016)
A maioria desses dados podem ser encontrados facilmente e com ilustrações no site do Movimento Mulher 360.
E aí, como você se sente?
No 2018 Global Gender Gap Report, lançado pelo World Economic Forum (WEF), estima-se que serão necessários 202 anos para que esse cenário seja revertido. Nem eu, nem você, estaremos aqui quando esse cenário ideal for (e se for) alcançado pela humanidade. Então, qual o nosso papel hoje pra que esse futuro seja possível?
- Mantenha-se informada(o): Hoje existem excelentes ferramentas digitais para medir progresso em indicadores sociais e, como vocês devem saber, a Igualdade de Gênero faz parte dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU até 2030. A UN Women tem uma iniciativa super legal que chama Women Count com dashboards e dados de todo o mundo sobre a situação das mulheres.
- Converse com a sua empresa sobre isso: A ONU Mulheres junto com o Pacto Global lançaram um documento muito interessante pro setor corporativo sobre os Princípios do Empoderamento das Mulheres, onde empresas se comprometem com várias práticas de inclusão. Sua empresa pode ser signatária e pode até receber reconhecimento por boas práticas!
- Se engaje na discussão e faça sua parte: Reconhecer que a mudança é necessária e discutir o tema são os primeiros passos, depois é preciso agir para reverter o quadro. Identifique qual é a sua contribuição para instaurar práticas mais inclusivas dentro do seu papel social, independente do setor ou função.
Essa é uma matemática simples. O Brasil precisa deixar a posição de quinto país mais violento para uma mulher viver, precisamos deixar de perder cérebros na área da ciência e da política, e aproveitar a oportunidade de crescimento econômico com mais mulheres ocupando cargos de alta liderança e avançar na justiça social do país.
Quando eu cresci, apenas meu pai trabalhava e a minha mãe cuidava da casa, ela não pode focar nos estudos e eu insisti para que ela realizasse o seu sonho de se graduar, que aconteceu apenas após os seus 50 anos. Hoje, tenho a oportunidade de escrever um novo capítulo na história da minha família, tive o privilégio de liderar muitos jovens, viajar sozinha por dezenas de países e conhecer a realidade de outras milhares de mulheres. São dados que mudamos através das nossas próprias histórias.
Essa é uma discussão global e avançar nas condições para uma menina, significa avançar para todas as mulheres. O que você faz hoje dentro da sua zona de influência (amigos, família, empresa…) pode abrir caminho para centenas ou até milhares de mulheres no futuro. Falar sobre tendências é pisar em um terreno arenoso onde as possibilidades são infinitas e o resultado nem sempre acontece da forma esperada, porém ações diárias podem solidificar o alicerce para as próximas gerações.
Por Lorena Stephanie
Email: lorenasteph@gmail.com | IG: @lorenastephanie_ | FB: /lorenastephanies
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Future of All foi realizado pela Consultoria Business to Innovation (@b2inn) com Apoio Institucional da Feira do Conhecimento.
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Leituras recomendadas sobre o tema:
- Faça acontecer: Mulheres, trabalho e a vontade de liderar (Lean in) da Sheryl Sandberg + Report da McKinsey Company
- Todos devemos ser feministas (We should all be feminists) da Chimamanda Ngozi Adichie
- O que é lugar de fala? da Djamila Ribeiro
E outras leituras importantes como Simone de Beauvoir, Angela Davis, Maya Angelou, aceito indicações! 🙂

Excelente artigo Lorena!
Traz dados que tanto nos alertam sobre o quão longe ainda estamos de um mundo mais justo e equilibrado, mas também nos aponta onde há oportunidades para agirmos, todo o tempo, para mudarmos esse cenário.
Muito obrigado por compartilhar sua visão e pela informação e esclarecimentos prestados!
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